3 de abr de 2012

Na fronteira entre a majestade e a miséria

Do alto a paisagem anunciava um novo mundo antigo. Através da escotilha podia notar as nuvens densas, que pouco me permitiam ao olhar flagrar o azul do Atlântico. Após atravessar as Colunas de Hércules, o sobrevoo revelava uma vastidão deserta que varia o horizonte anunciando a chegada ao Marrocos. Nos últimos minutos antes de aterrissar em Marrakesh, era possível notar que suas ruas vistas dali eram diferentes das estruturas quadrangulares e racionais das metrópoles modernas; eram vertiginosas, esparramadas como artérias, pulsantes de movimento e seguiam todas para um ponto comum ao centro da cidade. Imediatamente pensei que aquela era a grande zona central onde se localizava a praça onde eu precisava chegar. Como muitas cidades norte-africanas e do Oriente Médio, Marrakech possui uma parte fortificada – a Medina – e uma cidade moderna adjacente chamada Gueliz.

A moeda local era o dihan, extremamente desvalorizada em relação ao euro: onze vezes menos. Logo na saída do aeroporto, fui abordado por um grupo de taxistas que oferecia aos berros em meia dúzia de idiomas seus serviços. A primeira dica para que chega à Marrakesh é a negociação. Quase tudo que é oferecido pelos marroquinos merece ter seu preço contestado. Muitas vezes o valor inicial está cinco, sete, até dez vezes mais alto que o preço real.

Após muita conversa Ali, um senhor sorridente, calvo e de grande bigode, aceitou o meu preço e logo seguimos no seu antigo Mercedez 2.400, bege – cor de todos os táxis da cidade – para a Jemaa el-Fna, no centro da cidade. A confusão das ruas dava seus primeiros sinais. Inúmeras motocicletas e carros antigos dividiam espaço com carroças, bicicletas e pedestres. Um trânsito alucinante e um taxista que falava apenas árabe, mas que dizia compreender onde eu queria chegar. De fato eu não sabia se me fiz entender, mas não deixava de acreditar que era esse risco o que fazia da viagem um prazer ainda maior.

Ao fim do trajeto, tinha em mãos um pequeno mapa desenhado à mão de como chegar ao albergue que me hospedaria e nenhuma noção de onde Ali havia me deixado. Pedir informações aos comerciantes marroquinos, que por toda rua me ofereciam ofertas de hotéis e restaurantes, também não era a melhor opção. Não pela diferença dos idiomas, pois eles sempre arrumavam uma forma de entender outros idiomas, mas sim porque eles costumam cobrar caro por informações dos locais desejados, já que muitos são os que se perdem por ali.

Tendo um desafio à minha frente, resolvi seguir o fluxo dos pedestres, que se tornava mais intenso e sem sentido a cada passo, até encontrar o ponto de referência indicado no mapa. Muitas eram as vielas e atalhos, mas naquelas circunstâncias o ideal era não sair fugir muito à trilha. Não havia jeito. Tudo era muito tortuoso para se encontrar algo tão pequeno como aquele ponto no mapa.

Resolvi pedir ajuda a um jovem na rua, mas fiz logo questão de esclarecer que não precisava de um guia, apenas uma informação. O homem riu e com a mão sobre meu ombro explicou que trabalhava ali, que isso não me custaria nada. Após algumas voltas, pude notar no alto uma pequena placa que anunciava a pequena viela onde ficava o Amour d’Alberge. Finalmente podia repousar os preparativos para a jornada.

Pondo os pés no chão

Fui recebido por Issam, um simpático funcionário que tinha dificuldades em pronunciar o meu sobrenome. Depois de deixar a mochila no quarto, segui para a cobertura do albergue na tentativa de sossegar a mente antes de encarar de novo a confusão das ruas. Mas silêncio não fazia mesmo parte da vida daquela cidade. Logo fui surpreendido por um som alto, aturdido e estranho aos meus ouvidos. Ao lado do albergue havia uma grande torre de uma mesquita, o templo dos islâmicos.

Notando minha curiosidade, Issam me explicou em espanhol o que aquilo representava para eles e aproveitou para contar um pouco mais sobre sua religião e algumas das regras de comportamento dentro da Mesquita, chamada por eles de masjid. A conversa amigável logo foi interrompida com a chegada de um grupo de espanhóis e franceses que também estavam hospedados no Amour d’Alberge, e decidi então aproveitar para conhecer um pouco mais dos arredores.

Em pouco tempo a contradição da cidade me tomou completamente. Algumas ruas foram o suficiente para prever todo o universo exótico que estava se apresentando diante dos meus olhos. Era difícil falar muito, parecia perda de tempo. Com tantas orbitas, o silêncio era a chave para dedicar o fascínio aos cinco sentidos com plenitude. A Jemaa el-Fna era a perfeita tradução de Marrakesh, um lugar para se perder, se desencontrar, e em alguns passos se reencontrar. Eram homens com macacos adestrados posando para fotos nos ombros dos turistas, músicos berberes – nome do povo local – com alaúdes típicos e tambores de cerâmica e couro, encantadores de najas com suas longas flautas, cartomantes e pintoras de rena, crianças que atuam pedindo esmola para no fim entregar a adultos exploradores escondidos na multidão, e sorridentes vendedores do suco de laranja mais doce que já provei. Todos em uma harmonia paradoxal, em meio à organização caótica dos souks – como são chamados os estabelecimentos.

Caminhei por outras ruas até encontrar um lugar para comer. Era notável que os restaurantes populares dentro da Mesquita eram de muito pouca higiene e sempre lotados
. Quando encontrei um local um pouco mais limpo, me encorajei a provar um prato típico. A entrada foi de pães marroquinos, que possuem uma forma achatada e um sabor único; o que faz do Marrocos o país que mais consome pães no mundo: cerca de cem quilos por habitante em apenas um ano.

A tajine é um prato marroquino, tradicional em diversos países árabes do norte de África temperado com canela, alho, açafrão, gengibre, cominhos e pimenta. O mesmo nome é dado também o nome da panela especial utilizada no seu preparo, que é feita com barro cozido, pintado ou envernizado para resistir a elevadas temperaturas de cozimento do prato. Também possui uma tampa cônica, de forma que todo o vapor condensado volte para o fundo da panela. As tajines mais famosas são mqualli – frango e citrinos –, kefta – almôndegas e tomate – e mrouzia – ovelha, passas e amêndoas –, mas elas também podem ser preparadas com ingredientes como peixe, pombo, carne de vaca, frutos secos, azeitonas e vegetais.

Além do clima mediterrâneo, Marrakesh também é uma cidade marcada pela baixa umidade do ar, o que fazia essencial ter sempre muita água em mãos. Em um reabastecimento, notei que uma garrafa de água custava quase o dobro do valor de uma Coca-Cola. Retornando para o albergue passei a observar com mais atenção os diferentes modos de vestimentas das mulheres.

As variações iam desde a burca até o simples véu, e tinham um significado acima de tudo político. Ao subir ao trono há pouco menos de dois anos, Mohammed VI anunciou que ia libertar as mulheres. O movimento feminista, que tinha nascido nos anos oitenta, aliou-se ao atual rei e assim que começou uma revolução que está em curso nos costumes e na mentalidade, mas principalmente nas leis. O novo Código da Família, aprovado há oito anos, confere às mulheres direitos iguais no casamento, e a legalização do aborto vem sendo discutida desde então. No entanto, os principais inimigos da luta feminista são, sem dúvidas, as raízes conservadoras.

Em meio a tantas cenas, uma em especial me fez voltar minha atenção. Um senhor magro e alto, de muletas, buscava comida em um cesto de lixo, na zona dos restaurantes de luxo do centro. Bastaram as primeiras fotos e um pouco da minha aproximação, e o homem me lançou um olhar cabisbaixo, respondendo minha postura de estrangeiro chocado co
m a cena. Com um raio, um funcionário de um dos restaurantes correu de braços abertos para frente da câmera e gritava em inglês que eu não tinha permissão para fotografar ali, e que devia parar imediatamente. Enquanto isso, estrangeiros lançavam migalhas aos cães e gatos, e outros tantos homens reviravam latas em busca dos restos de algum daqueles pratos.

Havaianas, haxixe e motocicletas loucas

A manhã seguinte não tinha um roteiro previsto, pois tudo saiu dos eixos quando me deparei com a cidade diante de mim. A rota mais provável era adentrar as ruas e buscar tudo que Marrakesh tivesse a me oferecer. Logo as seis, pude ouvir a primeira prece ecoando da mesquita vizinha. O café da manhã era de pães marroquinos, uma excelente geleia de pêssego e o não menos saboroso suco de laranja. Mochila nas costas, passaporte, alguns dihans no bolso e segui para a rua.

Logo na esquina, um sussurro súbito chegou aos meus ouvidos. O homem que no dia anterior me ajudou a encontrar o albergue me oferecia haxixe, e reforçava dizendo “good price for you, good price”. Uma outra face do Marrocos passava a se revelar. Fiz questão de levar a conversa adiante, discretamente, e ver onde íamos chegar. Questionado sobre como traficar tão livremente dentro da Medina, o homem me explicava com seu espanhol confuso que era tudo uma questão de saber quem abordar e se movimentar bem nas ruas da Medina. Por via de segurança, segui caminho e despistei, prometendo que conversávamos mais tarde. Nunca mais o encontrei.

No principal cruzamento da Jemaa el-Fna, o trânsito já era intenso àquela hora da manhã. Marrakesh parecia ser um único canto do mundo onde o sinal vermelho não queria dizer absolutamente nada aos motociclistas desvairados e pedestres sempre apressados. Mulheres com bebês de colo amarrados por lençóis nas costas, homens de bicicleta, carroças para passeios turísticos, carregadores, e nem sinal de algum guarda de trânsito para coordenar o tráfego. Impressionava-me como apesar de toda atmosfera durante todo o tempo não vi nenhum acidente entre os insanos no volante.

Adentrei então outra zona da grande praça. Para além das najas e macacos, pude notar os diversos souks onde tudo se vende, e principalmente, muito se negocia os valores. Peças de artesanato berbere das mais diversas naturezas eram encontradas ali, desde lâmpadas e máscaras, até por estatuetas e narguilés.
Negociei muito e acabei comprando algumas peças raras do artesanato local por um preço bastante convincente para mim – ainda assim, a sensação de que o vendedor levou uma grande vantagem sobre mim era inevitável ao ver seu sorriso satisfeito após fecharmos negócio.

Segui por ruas onde imperava o comércio dos temperos. Em cada nova loja, uma novidade gastronômica, desde grãos a óleos raros. Era possível notar também a presença de fotografias emolduradas do rei Mohammed VI em muitos dos souks, o mesmo rosto impresso nas notas dos dihans. O calor era intenso àquela hora e resolvi trocar as botas pelas havaianas, e continuar percurso de modo menos incômodo. Ao apanhar as sandálias da mochila, um grupo de cerca de oito garotos que jogavam futebol me cercaram, deixando até mesmo a bola para trás. Insistiam para calçá-las por uns minutos sequer, boquiabertos, exclamando sua curiosidade em francês. Outros, mais velhos, já diziam quem eram seus ídolos brasileiros no futebol europeu; mas não deixavam de ponderar que o futebol argentino também era muito bom.

Enquanto isso, um jovem avistou o alvoroço e se aproximou de mim, me abordando na tentativa de trocá-las. Era impossível compreender bem o que ele dizia com tamanha euforia em negociar comigo, compreendia apenas o que ele comentava sobre o verde e amarelo das havaianas, e insistia em saber o que eu queria da sua loja. Neguei a oferta insistente e saí sem muitas palavras, a fim de evitá-lo. Mas não adiantou muito. O jovem me seguiu e acabamos trocando o par de havaianas por cinco luminárias. Um bom negócio afinal.

Mergulhando em mil e uma noites

Decidi então conhecer um local sugerido pela beleza e riqueza histórica e arquitetônica. Os gatos estão por toda parte da sua entrada, sempre cheios da preguiça típica dos nobres. O Palácio El-Bahia sem duvida é um oráculo do minimalismo para qualquer arquiteto moderno. Sua construção teve fim no século XVI, um edifício composto por um emaranhado de salões nobres, jardins de plantas tropicais e amplos pátios, onde se destaca o trabalho de decoração islâmico de arabescos e azulejaria. Suas cores e combinações em padrões seguiam para dentro de um universo mágico, das milimétricas sobreposições de trabalhos artesanais ao fluxo de salas que me envolviam, como se estivesse participando ativamente de um conto das Mil e Uma Noites sendo construído bem diante dos meus olhos pela minha imaginação em pleno fervor.

A comunicação em Marrakesh é o ápice do desencontro. Não havia como negar que a todo tempo eu estava imerso em um turbilhão de informações. Todo o espaço se comunicava intensamente comigo. As vozes dos transeuntes envolvidas de mistério na sua entonação, tantas placas escritas em um idioma perplexamente distinto do que para mim era legível, as buzinas roucas das Moscas à desrespeitar as calçadas e cortar os semáforos, sempre apressadas. Até mesmo uma simples exclamação me instigava pelo seu ruído. Um palco onde era inevitável o estranhamento do mundo novo. Contudo, esse ápice da mistura sinestésica da cidade não representava nenhum tipo de barreira para me comunicar. Sentia-me deixando a cidade sendo um tanto mais castelhano, árabe, americano, francês. Ao fim do primeiro dia já não falava mais o puro português. Perguntava coisas simples como, “onde fica o banheiro?”, de um jeito mais ou menos “donde est bathroom?” e por mais incrível que pareça, era perfeitamente compreendido.

Enquanto pardais alvoroçados cortavam o céu no fim da tarde de Marrakesh, eu caminhava próximo à mesquita central de Koutoubia. Embora não pudesse entrar ou fotografar o templo, assisti toda a oração, bem quieto, junto a uma das dezenas de portas da imensa mesquita. Podia notar a separação de homens à frente e mulheres ao fundo do salão, em uma dinâmica de atos de cerimônia sincronizados a cada verso lido do alcorão. Segundo o islamismo, os muçulmanos devem vestir-se de forma modesta, inclusive quando frequentam a mesquita. Os homens devem estar trajando roupas largas que não revelem as formas do corpo. As mulheres também devem seguir o mesmo padrão, com blusas e calças que cubram os pulsos e tornozelos.

Todos os muçulmanos adultos devem realizar o salá – oração pública – cinco vezes por dia, prostrando-se em direção à Meca. Não é necessário rezar nas mesquitas, mas de acordo com um hadith – corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida de Maomé – realizar a oração junto com outros muçulmanos é mais piedoso do que rezar sozinho; como fazia Issam, cinco vezes ao dia em um pequeno quarto dentro do albergue, durante o horário de trabalho.

A entonação das vozes ainda ressoava por toda praça através dos autofalantes, e a vida seguia corrida no coração de Marrakesh. Caminhando mais um pouco, me surpreendi ao perceber as fileiras de laranjeiras floridas plantadas em plena avenida principal. Enquanto me distraia, um garoto que passava na rua chutou uma laranja caída em minha direção. Reconheceria aquele ato em qualquer lugar do mundo, e sabia a melhor resposta. Chutei de volta e assim começamos nossa partida bem ali, no meio da Jemaa el-Fna, chamando atenção de ambulantes e quem mais passava, rindo de tamanha peraltice. Ao fim, um aperto de mão caloroso e a saudação de paz que selou minha partida. Salam Aleikum.

Toni Caldas

Galeria de fotografias: www.flickr.com/tonicaldas
Trilhões de entrelas entre grãos de areia - Segunda Parte

Um comentário:

  1. menino, gostei do titulo, do texto e das fotos.o caminho é este.fiquei muito feliz, rob

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